11.12.08

E deu em nada

O Tribunal Regional Eleitoral concedeu, nesta tarde, liminar que suspende as sentenças do Juiz Eleitoral que cassavam o registro da candidatura de Miguel Haddad.
A decisão é provisória, mas não há por que alguém se iludir.
Se no conjunto da obra que lhe foi apresentada o Tribunal não viu empecilho para a concessão da liminar, não cabe, nem ao mais incontido otimista, imaginar que, futuramente, essa decisão, inegavelmente frustrante para considerável (certamente a maior) parcela do eleitorado, venha a ser revista.
Portanto, hoje, dia 11 de dezembro, as eleições em Jundiaí chegaram ao fim.
Miguel Haddad, candidato que não apresentou um só projeto de vulto em seu programa de governo, e amarrado por compromissos da maior coligação já vista nesta terra, é o prefeito, com o que se abre para a cidade, nos próximos quatro anos, uma perspectiva desoladora, a se tomar como parâmetro a mediocridade de seus dois mandatos anteriores.
À oposição, cada vez mais dividida e desorganizada, resta, de novo, lamber as feridas. Parece até vício isso.

7.12.08

Inculta

Manchete da edição de hoje do Jornal de Jundiaí:

"NOS ACOMPANHE NA VIAGEM PELO HOSPITAL SÃO VICENTE"

Não, não. Essa não tem desculpa.
Nem a de que compraram gramática da velhinha que vende ovos podres.
Ovos podres

O ambiente político esquentou além do desejável. Em momentos como esse, um chamado à razão é sempre bem-vindo. Por isso, o post começa com citação de Roberto Romano:

“O não permitido, na ordem ética, é usar subterfúgios para eludir erros. Os ministros acusados de uso indevido dos cartões seguiram, na sua defesa, a linha da camuflagem e da antilogia. Antilogia é técnica retórica polivalente e consiste em voltar ao acusador uma outra carga, o que atenua o peso da acusação original. Usado fartamente pela sofística, aquele torneio discursivo foi discutido de muitos modos na filosofia moderna. Um exemplo é dado por Hegel em texto sobre o subjetivismo alérgico à razão e à ciência. “Escute, minha senhora, seus ovos estão podres”. É o que diz a compradora numa feira à pessoa que vendia ovos. “O que, replica a macróbia, meus ovos estão podres? Vejam quem fala! Os percevejos não devoraram o seu pai num atalho do campo, sua mãe não fugiu com os franceses e sua avó não morreu no hospício? Que ela compre com seu lenço barato uma blusa decorosa! Seus lenços e chapéus, sabemos muito bem como ela os consegue!” (Hegel, GWF: Quem pensa abstrato?). Antilogia é praticada pela velhota pega em erro. Ela poderia dizer que ovos são delicados e de fato alguns deles apodreceram. Daí, devolveria o dinheiro à compradora ou a ressarcia com produtos sadios. Mas sempre com um pedido de desculpa pela ocorrência involuntária.”

“Ela também poderia culpar os fornecedores, abrir uma longa trilha de culpados, talvez chegando ao pai Adão e à mãe Eva, o que a levaria, claro, à serpente luciferina. Neste caso, a sua boa ou má fé só poderiam ser constatadas após minuciosas perquirições dos fiscais da feira, das granjas etc. A macróbia, no entanto, exala dolo em todos os poros. Pouco importa à pessoa pública ou privada a condição de quem fala - pelo menos numa sociedade republicana e democrática - o essencial é ir até às evidências, aos fatos. Não por acaso os processos judiciais corretos operam assim: dos fatos ao direito, deste aos fatos. Se o acusador é desonesto ou veraz, importa verificar o bem fundado de sua acusação. Não é permitido anular a palavra de um ser humano, pois isto significa estabelecer diferenças ontológicas que, no final, podem levar ao genocídio. Não é só coincidência o uso, na língua nazista e leninista, de termos que retiram a dignidade humana dos adversários ou vítimas. Nos dois conjuntos doutrinários, os que devem ser aniquilados recebem qualificativos envilecedores. Os nazistas chamaram os abatidos nos campos de concentração como “ratos” e “parasitas”. Lenine usa epítetos como “insetos nocivos” para se referir aos que não pensam como ele. No panfleto intitulado Como Organizar A Emulação são enumerados os “piolhos” a eliminar: os ricos, os preguiçosos, os intelectuais histéricos etc. Todos deveriam ser tratados sem piedade pelo regime revolucionário, encarregado de fazer “a limpeza” (cistka) na Rússia.”



O texto do professor (íntegra aqui) é imprescindível na apreciação da situação vivida pela cidade em virtude dos seis decretos de cassação do registro do candidato eleito, Miguel Haddad.
A argumentação da velhinha vendedora de ovos impregna os discursos proferidos em seguidas aparições do candidato impugnado e seus seguidores, chegando à páginas da imprensa local, desinteressada em desnudar sua incompatibilidade com a lógica.
Não importa a discussão dos motivos que levaram ao Juiz a tomar as decisões. Importa, desde o primeiro momento, desqualificar as oposições, blogueiros, e, de cambulhada - por que não aproveitar o ensejo, não é mesmo? – o Ministério Público (que foi, de fato, o autor da maioria dos pedidos de cassação acatados) e o Judiciário.
Mas e os fatos?
Bem, aí é preciso, desesperadamente, na batalha pela conquista da opinião pública , desconstruir a lógica das decisões judiciais, como se inexistissem relações entre estas e os fatos.
Nos últimos dias, a imprensa deu grande espaço ao fato de um membro do PMDB ter pedido a cassação do registro do candidato Pedro Bigardi, do PC do B. Os textos dos jornais vieram escandalosamente redigidos com o propósito de, contrapondo o pedido do peemedebista à situação de Haddad, passar à opinião pública algo mais ou menos assim: “Está vendo? Está vendo? A oposição também é uma m...”.
Ok., E daí? De onde tiraram o (peemedebista) requerente do pedido de cassação e a imprensa que pecados, irregularidades ou crimes eleitorais eventualmente praticados por Pedro Bigardi têm por conseqüência a absolvição de pecados, irregularidades ou crimes eleitorais eventualmente praticados por Miguel Haddad?
Se ambos praticaram irregularidades, ambos devem ser punidos. E ponto.
Mas parece que a velhinha vendedora de ovos podres fez escola e sua argumentação delinqüente (em última análise, nazi-fascista) veio mesmo para ficar e está aí a permear as matérias de jornais e entrevistas de situacionistas, que querem a seguinte leitura da situação: “quem é Pedro Bigardi para pedir a cassação de alguém ? Não foi ele que usou Caixa 2 na campanha? Então, Haddad tem de tomar posse.”
E pensar que haverá quem entre nessa...

3.12.08

O candidato

Turbadas (também) pela frustrada tentativa do atual prefeito de se candidatar à reeleição, as relações de Ary Fossen com André Benassi não são das melhores, para dizer o mínimo.
Por isso, é dado como certo que, confirmada a cassação do registro da candidatura de Miguel Haddad, André Benassi é que certamente será o candidato a prefeito. Ary Fossen? Nem pensar!
O assunto já é discutido normalmente no âmbito do PSDB.
Se, para o público externo, o nome do candidato pouco importa, já que nada muda, a situação chama a atenção porque revela que, também no partido, a situação de Miguel perante a Justiça Eleitoral já não é vista como confortável.

1.12.08

Retrato na parede

Quem ousa passear pela Rosário ou Barão é agora surpreendido (seria melhor aterrorizado?) com aquela bobajada colorida pendurada nos postes - codinominada decoração natalina - e com música (da pior qualidade, claro) saída de auto-falantes que melhor ficariam se utilizados na animação de bailes sertanejos.
A perspectiva de uma volta à civilização esboçada com a implantação do projeto Acerte o Centro (aquele que disciplinou a propaganda visual nas ruas centrais) não resistiu aos imperativos da mediocridade, do horizonte utópico amesquinhado do comércio local.
Não será surpresa, pelo andar da carruagem, um recital no Polytheama com a Tati Quebra-Barraco.
Num cenário como esse, não resta às vozes da esquina senão, parafraseando Milan Kundera, conformar-se com que ser jundiaiense é ter nostalgia de Jundiaí.
O caldo entornando

Enquanto, já não escondendo que a preocupação com os decretos de cassação se transformou em aflição, Miguel Haddad convocava, na tarde de hoje, a imprensa para divulgar seu secretariado - providência que ele próprio prometera somente para meados de dezembro e antecipada certamente por sugestão de seus marqueteiros, práticos no apontar meios de distração da opinião pública -, membros de seis partidos de oposição estavam reunidos com a finalidade de estabelecer a conduta a ser tomada por eles diante da conjuntura pós-eleitoral.
A reunião dos oposicionistas teve como fruto a designação de assembléia supra-partidária no Gabinete de Leitura, na próxima quinta-feira, às 19h30, evento que contará, segundo os idealizadores, com figuras de projeção no cenário político nacional de diversos partidos.
Hum.. Miguel Haddad pode até assumir. Mas seu próximo mandato promete ser muuuiiiito acidentado.


Retificação
(em 2/12):
A montanha pariu um rato. A convocação bombástica da imprensa, no final, era só para anunciar a equipe de transição. De resto, fica mantido o post. Especialmente no que respeita às preocupações do eleito.

30.11.08

A contribuição do padre
A edição de hoje do Bom Dia traz, na seção de cartas dos leitores, manifestação de um padre, Adriano Ferreira Rodrigues ( que, na mesma publicação, é entrevistado como aficionado de videogame), na qual o religioso afirma que participou de um jantar organizado para a arrecadação de fundos para Marcelo Canale,ex-candidato a vereador.
Tentando suavizar a situação do candidato, escreveu: “Paguei pelo convite que dava direito ao bufê da casa e, além disso, arquei com despesas que não eram contempladas pelo convite, como bebidas e sobremesa.”
Primeira observação: se o candidato - que, embora não eleito, também teve seu registro de candidatura cassado (e os votos anulados) - não declarou direitinho a arrecadação, inclusive o dinheirinho do padre, acaba de ver sua prestação de contas complicada pela carta publicada no jornal. Pode, assim, ter arrumado um novo problema.
Segunda: os padres mudaram. Hoje dão dinheiro para políticos. Naquela história de que “quem dá aos pobres,empresta a Deus” parece que ninguém mais entra, talvez pelo desestímulo que veio com o alerta do Barão de Itararé: “Quem empresta aos pobres, adeus.”

Miguel preocupado. Ary em campanha.
A inquietação que tomou conta das hostes de Miguel Haddad escapou do controle.
Preocupado como nunca com as conseqüências das traquinagens perpetradas em sua campanha, severamente castigadas ( com merecidos aplausos de parcela do eleitorado que ainda consegue se indignar) pela Justiça Eleitoral, pôs-se a campo para, de um lado, amesquinhar a gravidade de sua situação perante a Lei, e, de outro, tentar recompor sua imagem, gravemente arranhada pela sucessão de denúncias e decretos de cassação.
Vale-se, então, desde meados da semana passada, de repetidas aparições na imprensa local.
O resultado não poderia ser pior. O único que está obtendo é o de passar recibo de que, por causa das sentenças de cassação, sua eleição está, como se diz, “subindo no telhado”. Pela primeira vez, em todos esses anos em que pontificou ora prefeito, ora como candidato, está se mostrando fragilizado.
Claro está que não escapa a ninguém, muito menos a um político veterano, que esses processos podem ter um prazo de tramitação muito além do suportável, situação de que se ocupou Jânio de Feitas em sua coluna de hoje na Folha de São Paulo (“Dessa realidade já tão idosa e sempre intocada, sobressai a evidência de que o crime eleitoral, se der a vitória na aritmética da apuração, é garantia de exercício do mandato, por bom tempo e às vezes por todo o tempo, com uso e abuso de todos os poderes dos eleitos legitimamente. Uma realidade corriqueira no Brasil, renovada a cada dois anos com eleições de prefeitos e de governadores.”).
Mas, pouco importando o resultado dos processos em que se envolveu o eleito, menos ainda o quanto de tempo podem tomar para chegar a um fim, o grande estrago já foi feito: a imagem foi arranhada, e tão profundamente, que sua própria autoridade estará permanentemente em xeque em seu mandato, este fadado a ser marcado pela potencialização da mediocridade que marcou suas gestões anteriores.
A blitzkrieg na opinião pública não foi apenas um fracasso. Pior, teve o efeito de um bumerangue.



Em plena atividade, o atual prefeito, Ary Fossen, nem de longe se assemelha a um “pato manco”, expressão que os americanos usam para designar políticos em final de mandato.
Muito pelo contrário, está em plena atividade, fiscalizando e inaugurando obras, sempre cercado de seus secretários, dando a cada ato administrativo externo dimensão muitas vezes incompatível com sua real importância.
Em outras palavras: previdente, já está em campanha, seja para deputado, seja para prefeito.
Vozes na esquina acham que o cargo pretendido (e já!) é o segundo.

27.11.08

As coisas mudam
É sempre um prazer escrever sobre os maus bocados por que passa essa turma que está no poder há vinte e seis anos. Naturalmente que o post se refere à cambulhada de processos que ainda tramita perante a Justiça Eleitoral sobre os meios - como dizer? – pouco ortodoxos que teriam beneficiado Miguel Haddad e seu vice nas últimas eleições e os reflexos desses embates judiciais na vida política da cidade.
Pelas informações que vêm à público, sabe-se que a dupla vencedora ainda tem grandes batalhas jurídicas pela frente. Desde a investigação da participação da Guarda Municipal em filmagens para o horário eleitoral gratuito, jantares, passando por irregularidades na realização de pesquisas, o fato é que os vencedores terão ainda muita coisa a explicar.
Não por acaso, já emplacam cinco sentenças de cassação de registro de candidatura. Um recorde nada invejável.
Claro, Haddad e seguidores vão dizer: "isso tudo vai dar em nada", frase que, em outros tempos, chegou a ser tomada como palavra de ordem quando proferida por qualquer daqueles que transformaram a cidade em simulacro de capitania hereditária.
Bem, parece que, agora, os fatos não permitem que se faça a afirmação com tanta certeza.
Mudanças houve no panorama político. Não foram poucas, nem inexpressivas.
A atuação de um juiz rigoroso já se mostrou suficiente para escancarar à opinião pública as práticas pouco usuais da campanha de Miguel Haddad, o que, desde logo, representa uma perda para o eleito, que, ainda que tome posse, vai começar o mandato com a imagem bem arranhada.
Mas não é esse o único e pior problema do candidato eleito, que, na verdade, corre sim perigo de não tomar posse ou, empossado, ter, a seguir, seu mandato definitivamente cassado, como ocorreu recentemente com prefeito de Cajamar.
Em pleitos anteriores, os embates de Haddad e seus companheiros perante a Justiça Eleitoral se desenrolavam sem grandes reações da oposição.
Nos últimos dias, no entanto, estimulada pelas decisões da Justiça Eleitoral, a oposição parece ter-se animado a valer-se do apoio jurídico e da pressão política dos diretórios estadual e nacional do PT e PC do B, o que não é pouco, nas batalhas junto ao Tribunal Regional Eleitoral.
Não bastasse, hoje, à espera da confirmação da realização de novas eleições, além dos três candidatos derrotados (Pedro, Gérson e - quem mesmo?), está nada menos que o atual Prefeito Ary Fossen, que, certamente, não anda comandando hollas para animar a dupla de eleitos a superar os obstáculos jurídicos criados por ela própria na campanha encerrada.
A verdade é que pode o atual Prefeito estar muito bem antevendo ( e com toda razão) que próximo está da candidatura que lhe foi negada no início deste ano. Só que, agora, com uma vantagem: é o único no partido que terá condições de, cassado definitivamente o registro de Miguel Haddad, fazer frente à oposição. Ou seja, terá o cassado e Benassi a seus pés. E ambos torcendo desesperadamente por sua vitória. Não é pouco.
Miguel Haddad nunca esteve em situação eleitoral tão difícil.
Com a oposição disposta a peitá-lo como se deve perante a Justiça Eleitoral e com um Ary Fossen inapetente por qualquer tipo de mobilização para salvar a candidatura cinco vezes cassada, fica, doravante, difícil para o eleito e seguidores dizer que “isso vai dar em nada”.

8.10.08

A (falta de) imaginação no Poder
Entrevista do prefeito eleito publicada no JJ de ontem deixa muito claro que Miguel Haddad se colocou em campanha e obteve mais um mandato sem a mínima noção do que vai fazer no comando da cidade. Na referida entrevista, não conseguiu articular para o diário um só projeto que tenha em vista, deixando inequívoco seu distanciamento de qualquer perspectiva que seja de mudança ao afirmar que "muda o governo, mas as ações continuam no mesmo ritmo", declaração que chega a soar como ameaça. Ou escárnio, dependendo do ponto de vista.
Na mesma entrevista, Miguel Haddad anuncia um secretariado técnico, deixando claro, em seguida, e na mesma entrevista, que as nomeações podem ser políticas (!), recorrendo, em busca da coerência, à atuação de José Serra no Ministério da Saúde, como se o caso do atual governador não fosse único, como se houvesse alguém da mesma estatura, em se tratando de competência, disposto a se submeter às suas ordens na Prefeitura.
Em outras palavras, não tem noção do que vai fazer e do que vai enfrentar.
Nem do que fala.
Aos poucos, reserva-se para Jundiaí a mesma sorte do Paulista.