10.2.08

A demolição da imprensa
A notícia - publicada hoje na imprensa local - dando conta da demolição de todos os prédios que compunham o estabelecimento da Companhia Fiação e Tecidos São Bento, fundada em fins do século XIX, não pode ter sido recebida com surpresa por ninguém.
De bandeja as vozes na esquina dão a possibilidade de aquele patrimônio não ter valor histórico algum. Portanto, não há, a partir de tal pressuposto, o que lamentar. Alimentam a possibilidade principalmente o silêncio e a inação daqueles cuja razão de ser ou de existir justificaria a tomada de providências (não agora, mas há muitos anos) no sentido de preservar os prédios.
De fato, ao longo de quase vinte anos, ninguém, nenhuma instituição, particular ou não, dessas voltadas à luta pela proteção de patrimônio histórico, nenhuma administração, nenhum órgão de imprensa se permitiu, no âmbito das respectivas atribuições, uma providência no sentido de que os prédios da extinta empresa viessem abaixo.
Não se há de colocar em dúvida a informação de que o "prédio era listado no inventário, em posse da Secretaria de Planejamento, para estudo de tombamento como patrimônio histórico" e que "o processo estava emperrado porque ainda não existia um Conselho Municipal de Patrimônio, criado somente no fim de 2007”.
Isso não invalida o que se escreveu antes. Pelo contrário, confirma: se há cinco anos era listado tendo em vista um possível tombamento, havia que fiscalizar a cada dia as condições em que estava o imóvel.
Como tudo em Jundiaí, aquele estudo também era, e isso agora ficou bem claro, faz-de-conta. Portanto, não era nada.
Assim, afastada está, principalmente pelo comportamento dos agentes envolvidos, inclusive pelo faz-de-conta que foi sua inserção numa lista de tombamento, qualquer possibilidade de ter vindo abaixo um patrimônio que devesse ser preservado.
O que se pode esperar, então, que ocorra a um prédio abandonado há quase vinte anos? A demolição, portanto, não foi supresa.
Ainda sobre o caso, jornais locais informam que foi na antiga Companhia, "em meio aos teares, que teve início a primeira greve feminina do Brasil, em 1906" . Essa informação foi passada pela.....CUT!
Pelo visto, foi o máximo que os cutistas conseguiram achar de relevante para comentar o assunto a partir dos arquivos da Central, enquanto as vozes na esquina, bem longe do cutismo, passaram a ter como tema de suas conversas,à vista da notícia de hoje, as centenas e centenas de processos movidos pelos funcionários que não recebiam seus direitos, o fato de, segundo o Jornal da Tarde no início dos anos 80, a extinta Companhia ser a maior devedora do FGTS no Brasil, o modo estranho com que sua falência era decretada num dia e revista no dia seguinte, o papel pouco ativo do sindicato da categoria nos últimos anos de atividade da empresa com a família Marques Vianna à testa. Muito seletiva essa CUT.
Mas tudo isso agora acabou. Nada mais importa.
O patrimônio estava lá e seus proprietários a ele vão dar uma destinação certamente boa, melhor - disso não duvidem - que aquele que se reservou ao prédio da falida ARGOS, um autêntico sorvedouro de dinheiro público, utilizado para generalidades de importância nenhuma, a que, aqui, se dá o nome de cultura (afe!).
Nada mais importa? Nada disso. Tem algo que muito incomoda e não diz respeito, como seria de se imaginar, ao evidente alheamento do poder público municipal com relação à demolição dos prédios.
Com efeito, a própria imprensa local informa que a demolição se deu nos dias de carnaval.
Dá-se que o Carnaval acabou na terça-feira.
Há, então, alguma justificativa para que a imprensa local dê conta do acontecido somente neste domingo, quatro dias após o término da derrubada? O que a levou a tanta demora? Ninguém viu qualquer movimentação estranha desde o início do trabalho? Tenham dó, né?
Pelo espaço ocupado nos jornais no dia de hoje, tratava-se de matéria, do ponto de vista histórico, importantíssima. Assim, omitir ou retardar a informação não encontra explicação nem na preguiça, nem mesmo na incompetência.
Então fica a pergunta: por que é que a imprensa local retardou a publicação da notícia?