7.12.08

Ovos podres

O ambiente político esquentou além do desejável. Em momentos como esse, um chamado à razão é sempre bem-vindo. Por isso, o post começa com citação de Roberto Romano:

“O não permitido, na ordem ética, é usar subterfúgios para eludir erros. Os ministros acusados de uso indevido dos cartões seguiram, na sua defesa, a linha da camuflagem e da antilogia. Antilogia é técnica retórica polivalente e consiste em voltar ao acusador uma outra carga, o que atenua o peso da acusação original. Usado fartamente pela sofística, aquele torneio discursivo foi discutido de muitos modos na filosofia moderna. Um exemplo é dado por Hegel em texto sobre o subjetivismo alérgico à razão e à ciência. “Escute, minha senhora, seus ovos estão podres”. É o que diz a compradora numa feira à pessoa que vendia ovos. “O que, replica a macróbia, meus ovos estão podres? Vejam quem fala! Os percevejos não devoraram o seu pai num atalho do campo, sua mãe não fugiu com os franceses e sua avó não morreu no hospício? Que ela compre com seu lenço barato uma blusa decorosa! Seus lenços e chapéus, sabemos muito bem como ela os consegue!” (Hegel, GWF: Quem pensa abstrato?). Antilogia é praticada pela velhota pega em erro. Ela poderia dizer que ovos são delicados e de fato alguns deles apodreceram. Daí, devolveria o dinheiro à compradora ou a ressarcia com produtos sadios. Mas sempre com um pedido de desculpa pela ocorrência involuntária.”

“Ela também poderia culpar os fornecedores, abrir uma longa trilha de culpados, talvez chegando ao pai Adão e à mãe Eva, o que a levaria, claro, à serpente luciferina. Neste caso, a sua boa ou má fé só poderiam ser constatadas após minuciosas perquirições dos fiscais da feira, das granjas etc. A macróbia, no entanto, exala dolo em todos os poros. Pouco importa à pessoa pública ou privada a condição de quem fala - pelo menos numa sociedade republicana e democrática - o essencial é ir até às evidências, aos fatos. Não por acaso os processos judiciais corretos operam assim: dos fatos ao direito, deste aos fatos. Se o acusador é desonesto ou veraz, importa verificar o bem fundado de sua acusação. Não é permitido anular a palavra de um ser humano, pois isto significa estabelecer diferenças ontológicas que, no final, podem levar ao genocídio. Não é só coincidência o uso, na língua nazista e leninista, de termos que retiram a dignidade humana dos adversários ou vítimas. Nos dois conjuntos doutrinários, os que devem ser aniquilados recebem qualificativos envilecedores. Os nazistas chamaram os abatidos nos campos de concentração como “ratos” e “parasitas”. Lenine usa epítetos como “insetos nocivos” para se referir aos que não pensam como ele. No panfleto intitulado Como Organizar A Emulação são enumerados os “piolhos” a eliminar: os ricos, os preguiçosos, os intelectuais histéricos etc. Todos deveriam ser tratados sem piedade pelo regime revolucionário, encarregado de fazer “a limpeza” (cistka) na Rússia.”



O texto do professor (íntegra aqui) é imprescindível na apreciação da situação vivida pela cidade em virtude dos seis decretos de cassação do registro do candidato eleito, Miguel Haddad.
A argumentação da velhinha vendedora de ovos impregna os discursos proferidos em seguidas aparições do candidato impugnado e seus seguidores, chegando à páginas da imprensa local, desinteressada em desnudar sua incompatibilidade com a lógica.
Não importa a discussão dos motivos que levaram ao Juiz a tomar as decisões. Importa, desde o primeiro momento, desqualificar as oposições, blogueiros, e, de cambulhada - por que não aproveitar o ensejo, não é mesmo? – o Ministério Público (que foi, de fato, o autor da maioria dos pedidos de cassação acatados) e o Judiciário.
Mas e os fatos?
Bem, aí é preciso, desesperadamente, na batalha pela conquista da opinião pública , desconstruir a lógica das decisões judiciais, como se inexistissem relações entre estas e os fatos.
Nos últimos dias, a imprensa deu grande espaço ao fato de um membro do PMDB ter pedido a cassação do registro do candidato Pedro Bigardi, do PC do B. Os textos dos jornais vieram escandalosamente redigidos com o propósito de, contrapondo o pedido do peemedebista à situação de Haddad, passar à opinião pública algo mais ou menos assim: “Está vendo? Está vendo? A oposição também é uma m...”.
Ok., E daí? De onde tiraram o (peemedebista) requerente do pedido de cassação e a imprensa que pecados, irregularidades ou crimes eleitorais eventualmente praticados por Pedro Bigardi têm por conseqüência a absolvição de pecados, irregularidades ou crimes eleitorais eventualmente praticados por Miguel Haddad?
Se ambos praticaram irregularidades, ambos devem ser punidos. E ponto.
Mas parece que a velhinha vendedora de ovos podres fez escola e sua argumentação delinqüente (em última análise, nazi-fascista) veio mesmo para ficar e está aí a permear as matérias de jornais e entrevistas de situacionistas, que querem a seguinte leitura da situação: “quem é Pedro Bigardi para pedir a cassação de alguém ? Não foi ele que usou Caixa 2 na campanha? Então, Haddad tem de tomar posse.”
E pensar que haverá quem entre nessa...